Pular para o conteúdo
Livro-Site

Capítulo 1

A Fila do Abate

Ferro.

É a primeira coisa. O cheiro de ferro, velho e molhado, com alguma coisa doce e estragada por baixo. E a palavra já em cima do cheiro, pronta. Ferro. Sei o que é. Não sei como sei.

Devia haver um eu primeiro, e depois as palavras. Está na ordem errada. Reconheço o cheiro antes de lembrar que tenho um nariz. Alguma coisa fria em mim percebe isso e guarda, sem pressa, do jeito que se guarda um número.

Som. Reparo nele depois do cheiro. Já estava acontecendo antes de mim. Um zumbido alto, parado, vindo de cima. Por baixo do zumbido, outro ritmo, mais lento, molhado: ar entrando e saindo. Muito ar. Muita gente respirando junta, no mesmo tempo.

Abro os olhos.

Luz branca. Forte, sem lugar de onde venha. Dói. Fecho. Espero. Abro de novo, devagar. A luz não diminui. Cinza embaixo dela. Estou de lado, o rosto no concreto. Frio. Perto do meu olho tem um risco fundo cortando o chão, e dentro dele uma crosta escura, seca faz tempo.

Olho a crosta. Sangue. A palavra vem inteira, sozinha, como a primeira.

Reconheci o sangue antes da minha própria mão. Isso está errado também.

Não tenho tempo de pensar no que significa, porque longe, em algum lugar atrás de mim, alguma coisa de metal bate uma vez no concreto. Um som duro. Depois para. Ninguém responde. O zumbido continua. A respiração continua. Mas agora eu sei que o lugar tem mais coisa do que eu e o chão.

Movo a mão.

A mão se move. Os dedos abrem e fecham. Faço de novo, mais devagar, olhando. Obedecem. Então é minha. É um alívio pequeno, e dura pouco, porque levanto a mão até o rosto e ela não combina com nada.

É grande. Suja. A palma tem uma cicatriz branca de um lado ao outro, funda, como se um dia tivessem aberto a mão e depois fechado torto. Os nós dos dedos têm marcas menores, todas brancas, todas velhas. Os calos são duros, gastos em lugares certos. Não lembro de ter usado esta mão para nada.

Empurro o chão. O corpo sobe, pesado, lento, sem confiança. Sento. O mundo pende para a esquerda, espero, volta. Fecho os olhos até parar. Quando abro, olho para baixo, para mim.

Estou sem roupa da cintura para cima. O peito é uma confusão de marcas brancas, finas, umas retas, outras não, cruzando umas às outras. Uma mancha roxa nas costelas do lado esquerdo, nova; aperto de leve e dói, late sozinha. Os antebraços são piores: cicatriz em cima de cicatriz, risco em cima de risco. Na coxa, perto do quadril, a pele é repuxada e lisa de um jeito errado, dura. Passo o dedo. Ali não dói. É antiga.

Aperto o braço. Tem músculo embaixo, denso, organizado. Este corpo treinou. Apanhou. Bateu. Sobreviveu, porque está marcado deste tanto e ainda fecha a mão quando eu mando.

O corpo sabe coisas. Eu não sei nada.

Não sei meu nome. Procuro por ele e acho o buraco onde ele devia estar, do jeito que a língua acha o buraco de um dente que caiu. Não vem nome. Não vem rosto. Não vem voz. Não vem antes. Tem palavras soltas dentro de mim, prontas — ferro, sangue, mão —, mas nenhuma está presa a uma lembrança. Estão jogadas aí, sem dono, como os calos.

Levanto a cabeça. E vejo o resto.

Eles estão em pé. Em fila. A fila começa a poucos passos de mim e segue por um corredor de concreto, sem janela, até onde a luz branca apaga tudo. Muitos. Não dá para contar de tão longe. Homens, mulheres, todos sem roupa da cintura para cima, todos com a cabeça raspada, todos de costas para mim. Na nuca de cada um, queimada na pele, uma marca escura.

No mais perto dá para ler. Quatro riscos grossos, tortos, a pele ao redor mais clara, cicatrizada faz tempo. Nove. Nove. Oito. Quatro. No corpo da frente, outro: nove, nove, cinco, e mais um que não alcanço. Não são nomes. São contagens.

Olho para eles esperando que olhem de volta. Ninguém vira. Ninguém procura de onde veio o barulho de eu me levantar. Estão voltados para a frente, para a nuca de quem está na frente, e respiram — os ombros sobem e descem, devagar, no mesmo tempo, aquela respiração grande que ouvi antes de abrir os olhos. Mas os olhos não olham. O mais perto de mim está de lado, o olho aberto, molhado, vivo, e não vê nada. Ou vê uma coisa que não está aqui.

A fila anda.

Um passo. Todos juntos. Pés descalços no concreto, um baque seco, no mesmo instante, sem ninguém mandando que eu veja. Depois para. O corpo mais perto de mim andou e parou junto. Não tropeçou. Não pensou.

Olho aquilo e não entendo. Mas tem uma coisa dentro de mim que entende, ou pelo menos tem medo, porque é agora que percebo: estou tremendo.

Não mandei tremer. As mãos estão abertas no chão e sacodem. Os braços. O queixo. Tem um frio que não é o do concreto, que vem de dentro e bate o corpo todo. Tento parar. Fecho as mãos em punho. Travo o maxilar. Prendo o ar. O tremor diminui, fica pequeno. Solto o ar e volta. Mais fraco, mas volta.

Olho a fila de novo. Nenhum deles treme. Nenhum prende o ar, nenhum aperta a mão. Estão parados como os canos no teto — coisas postas num lugar, que ficam onde foram postas. E eu estou no chão, sacudindo, respirando errado, o coração batendo num lugar atrás da orelha que eu nem sabia que sentia.

Sou o único.

Conto de novo, porque contar não exige lembrar: um corpo, dois, três, dez, todos parados, e eu. Eu sou o que se mexe sozinho. O que sente. E o corpo — o corpo que treinou e apanhou — encolhe os ombros e abaixa a cabeça antes de eu mandar, querendo ficar pequeno, querendo ficar igual aos outros. Essa pressa dele me assusta mais que tudo. Ele já esteve num lugar onde mexer custava caro.

Levo a mão à nuca, sem pensar, no mesmo lugar onde eles têm a marca. Os dedos acham pele áspera, repuxada, uma linha em relevo que arde quando toco. Não consigo ver. Ninguém vê a própria nuca. Tento mesmo assim, viro a cabeça, o mundo gira, o esforço não serve. Tiro a mão. Sobra o ardor e uma certeza pequena e ruim que não quero olhar de perto.

A fila anda outra vez. E desta vez vejo o fim.

Lá longe, onde a luz embaça tudo, o corredor termina. Não numa parede. Numa abertura escura, do tamanho de um corpo, no fim do branco. A fila vai até ela. Quando a fila anda, é porque alguém entrou ali. Some. Um por vez. Some, os de trás dão um passo, o vazio fecha, tudo espera.

Tento contar quanto falta. Conto nucas, perco a conta na luz, recomeço, perco de novo. Muitos. Muitos entre mim e a abertura. E percebo que estou torcendo para que sejam muitos — que estou medindo a distância como quem mede quanto resta de uma coisa que está acabando. Uma parte de mim já decidiu, sem me perguntar, que chegar lá na frente é o fim.

Então vejo o buraco na fila.

À minha frente, no meio dos corpos, tem um espaço vazio. Do tamanho de um corpo. Os de trás não fecharam. O da frente não virou para ver por que o de trás sumiu. Ninguém notou que falta alguém ali. O espaço fica, aberto, do meu tamanho, exatamente onde eu estaria se eu fosse igual a eles.

O espaço é meu. Caí dele, ou nunca terminei de entrar nele. E ele continua ali, esperando, do jeito que um buraco no chão espera.

É olhando para o meu lugar vazio que o som muda.

Vem de trás, da parte do corredor que ainda não vi. Não é o zumbido. Não é a respiração. É sólido: passos. Pesados, espaçados, de sola dura, e a cada passo um tilintar curto de metal perto de quem anda. Um. Pausa. Outro. Não tem o tempo da fila. Tem o tempo de uma coisa que decide para onde vai.

A fila não reage. Os ombros sobem e descem. Os olhos veem o nada.

Meu corpo reage por mim. O frio de dentro vira gelo, sobe pela espinha, fecha a garganta. A respiração, que já estava errada, para de vez. Lá atrás, ainda longe, uma voz diz uma coisa curta. Uma palavra só. Seca, sem subir nem descer, como quem confere um item numa lista.

E os passos começam a vir na minha direção.