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Capítulo 1

Sangue, Concreto e a Boca

Os passos param do meu lado.

Não vejo o homem inteiro. Do chão o que existe são as botas: pretas, de sola grossa, manchadas na borda, a um palmo da minha mão. Acima delas, a barra de um casaco escuro e comprido. Na cintura, uma faixa larga com argolas de metal, e penduradas nelas formas compridas que não sei nomear, de cabo gasto. O cheiro que vem com ele é outro. Couro. Óleo. E, embaixo, o mesmo ferro de tudo.

Ele não fala comigo. Fala para o ar, para alguém atrás dele, na voz seca que ouvi vir de longe.

— Esse mexe.

Não é raiva. Não é surpresa. É a voz de quem leu um número que não bate com a coluna.

Outra voz, mais atrás:

— Ativo?

— Ativo. — A bota se move, aponta para mim sem tocar. — Tava na esteira.

Não entendo as palavras. Entendo o peso delas. Estou sendo medido. A medida deu errado. Alguém vai ter que corrigir. O errado sou eu.

Levanto a cabeça. É a coisa errada a fazer. Sei que é errada no instante em que faço, do mesmo jeito que soube do sangue antes da mão — a certeza vem antes do motivo. Mas levanto, porque preciso ver o rosto de quem decide.

O rosto está meio coberto. Uma faixa de pano ou couro do nariz ao queixo. Em cima dela, dois olhos. Não tem nada dentro deles para mim. Olham como quem olha um cano torto numa prateleira que precisa ficar reta.

E quando os olhos pousam em mim, uma coisa acontece dentro do meu peito.

Recua.

Não sei dizer melhor. Tem uma coisa no meio de mim — quente, com peso, uma coisa que eu nem sabia que tinha — e ela encolhe, foge para um lugar fundo demais para eu alcançar. O corpo grande e marcado se prepara sozinho: sinto as costas se armarem, o peso passar para os pés, o corpo sabe fazer alguma coisa, já fez muitas vezes. E a ordem para fazer não chega. Sai de onde nasce e morre no caminho.

A força está aqui. Sinto ela, densa, pronta, do tamanho do corpo todo.

E está atrás de uma coisa que não abre.

— Olha pra baixo — diz o homem.

A cabeça obedece antes de mim. Abaixa. Não foi medo da dor; a dor nem veio. Foi mais rápido que pensamento, mais antigo. A vontade de levantar o rosto existe e não chega à nuca.

Então a dor vem.


Aprendo umas coisas com o primeiro golpe.

A primeira: meu corpo sabe cair. A bota acerta as costelas do lado esquerdo, em cima da mancha roxa que já estava ali quando acordei, e antes de eu entender que fui atingido já estou rolando para o lado certo, o queixo recolhido, o braço subindo para a cabeça. Ninguém me ensinou isso agora. O corpo lembra sozinho.

A segunda: saber cair não ajuda tanto quanto parece.

O segundo golpe vem de cima, no mesmo lugar. Dessa vez alguma coisa nas costelas estala — não sei se quebra, um som surdo que sinto de dentro para fora. O ar sai todo de uma vez. Não devagar. É arrancado. Tento puxar de volta e o peito não obedece, fecha, e por um tempo longo demais eu não respiro, só abro a boca contra o concreto. O concreto é frio e tem gosto de poeira e ferro.

Depois, gosto de sangue. O meu, agora. Quente, ao contrário do resto.

São dois. Percebo pelos sons, porque os olhos não ajudam — o direito inchou rápido e o mundo desse lado virou uma fresta. Um par de botas na frente, outro atrás. Sem pressa. Entre um golpe e outro tem uma pausa, sempre do mesmo tamanho. É a pausa que me ensina o que eles são. Eles não estão me batendo. Estão fazendo uma tarefa, no tempo da tarefa. A tarefa tem um tempo certo, como apertar um parafuso o número certo de voltas.

Um chute nas costas. Outro no quadril. O ouvido direito começa a apitar, um tom fino e contínuo que cobre o resto do mundo. Por baixo do apito eu ainda escuto, longe: pés descalços no concreto, muitos ao mesmo tempo, o baque seco.

A fila andou.

Estão me desfazendo no chão e a fila andou, no tempo de sempre, sem pressa e sem atraso. Viro o rosto que ainda obedece e vejo, de baixo, na fresta do olho que abre, os pés deles avançarem juntos e pararem juntos. Ninguém virou a cabeça. Ninguém parou. Lá na frente a abertura escura engoliu mais um, e os de trás deram um passo, e o vazio fechou.

Essa é a parte que entra mais fundo que a bota. Não a dor. A dor é grande, mas a dor é sobre mim. Isso não é sobre mim. Estou sendo desfeito no chão de um corredor e nada no corredor muda por causa disso. A fila anda. A abertura come. Os homens trabalham. O lugar foi feito de um jeito que já contava com isto que estão fazendo comigo — uma coisa prevista, sem importância, limpa depois.

Tento levantar. Não decido tentar; o corpo tenta, porque é o que ele sabe. Ponho a palma da cicatriz no concreto e empurro. Subo um palmo. Uma bota pousa entre as minhas costas, sem força nenhuma, quase de leve, e só faz peso, e o peso me devolve ao chão. A mensagem não é dor. A mensagem é: não é você que decide quando levanta.

— Para de subir — diz a voz, entediada.

E aqui está a pior coisa que aprendo hoje.

Eu paro.

Não porque não posso. Tem força no corpo para tirar aquela bota das costas. Sinto a força, encostada na coisa que não abre, batendo nela. Eu paro porque levantar o rosto na frente daqueles olhos é mais impossível que aguentar a bota. O medo não é de apanhar mais. O medo é de ser visto. De ser notado outra vez. Fico no chão e abaixo o rosto no concreto sujo e faço o corpo grande ficar pequeno. Odeio fazer, e faço.

A bota tira o peso.

— Pronto. — A voz, para o outro. — Tá mole.


Não vou para a abertura.

Demoro a entender que é isso que está acontecendo. Mãos me agarram pelos braços — pelo antebraço da teia de cicatrizes, dedos fundos no músculo — e me erguem. Espero a direção da fila, a abertura escura. Em vez disso me viram para o outro lado. Para fora.

Falam por cima da minha cabeça enquanto eu penduro entre os dois, os pés tropeçando, procurando o chão.

— Baixo?

— Baixo. — Uma mão fecha no alto da minha cabeça, vira para o lado, deixa a nuca à mostra. Um polegar aperta no lugar áspero e repuxado que meus próprios dedos acharam antes. A dor é branca, sobe pelo crânio. Não vejo o que ele vê. Nunca vou ver a própria nuca. Ele faz um estalo curto com a língua, de quem confirma uma suspeita chata. — É. Esse não vai pra esteira.

— Lote tá cheio.

— Então abre vaga. — Me sacode, sem raiva, do jeito que se sacode um saco para assentar o que tem dentro. — Triagem. Não desperdiça.

Não desperdiça.

Das palavras todas, é a que entendo melhor. Não é sobre castigo. Não é sobre lei. É sobre conta. Eu valho alguma coisa. Não como gente — como peça, como medida, como o que não se joga fora antes da hora. Escapei da abertura escura. E pelo jeito como dizem, pelo cuidado novo com que me seguram agora, escapar não é sorte. É ser guardado para outra coisa.

Não sei o que é a outra coisa.

O corpo, que sabe das coisas antes de mim, fica mais frio.


Eles me arrastam pelo corredor, contra a fila. O corredor termina. Do outro lado tem espaço demais.

Paro de respirar, e dessa vez não é pelas costelas.

O chão acaba numa beirada. Tem uma passarela estreita de metal, e de um lado dela não tem parede. Não tem parede por muito tempo. Embaixo só tem vazio, e o vazio é fundo de um jeito que o estômago entende antes dos olhos. Não consigo medir. Tento — é o que eu faço — e não acho o fundo. Concreto descendo em curva, longe, e mais concreto embaixo do concreto, e some no escuro lá embaixo.

Tem luz onde não devia ter luz. Lá no alto, longe, um brilho frio, azulado, esticado sobre tudo. Pulsa. Devagar. E quando olho para ele, a coisa quente atrás do meu peito se mexe — pequena, mas se mexe, como se respondesse ao brilho antes de eu entender o que é. Some logo. Mas se mexeu.

Olho pra cima. Tem outro desses brilhos sobre mim também, longe, e ele zumbe. É o zumbido. O mesmo que ouvi antes de abrir os olhos. Vem daqui.

Tem coisa demais para olhar e dor demais para olhar direito. Pego pedaços. Uma sombra alta e escura no meio de tudo, em pé, atravessando o vazio de baixo a cima. Viro o rosto e ela está lá. A fresta do olho inchado abre para outro lado e ela ainda está lá, em outro ângulo, como se houvesse mais de uma e fosse a mesma. Tem furos de luz nela, estreitos. Não consigo contar.

Filas. Não a minha. Outras, longe, em outros pedaços de concreto mais embaixo e mais ao lado, pequenas na distância, andando no mesmo tempo seco que eu já conheço: um passo, parada. Vultos do tamanho de formigas andam lá no alto, em cima dos brilhos, e levo um tempo para entender que são homens, como os que me seguram. Grades. Blocos empilhados, um em cima do outro, com furos pretos que são portas ou são gente. Em algum lugar embaixo um cheiro sobe com o vapor: sangue, ferro, e uma coisa morna e gordurosa que dá fome e enjoo ao mesmo tempo, e por baixo dela um cheiro que o meu corpo reconhece e não quer reconhecer.

Não entendo o lugar. Mas entendo que ele é grande demais, e que tudo nele desce para o mesmo meio, e procuro uma beirada por onde se sobe e se sai, uma só, e não acho. Lá no altíssimo tem uma claridade que podia ser céu. Não é. Tem um brilho na frente dela, esticado, fechando.

Não é um prédio. Não tenho palavra para o que é. Sei só que respira, devagar, e que está cheio, e que eu agora estou dentro.

— Anda — diz o guarda, e me empurra para dentro.


Da descida eu perco pedaços.

Sei que descemos, porque os joelhos doem do jeito de descer e porque o ar foi ficando mais pesado, mais quente, mais molhado a cada nível. Sei que passamos por portões, porque ouço metal correr contra metal e travar atrás de nós. O resto vem em lascas, do jeito que a dor deixa.

Vejo o chão, muito. Concreto cinza, manchado, riscos escuros de dreno, e nos drenos a mesma crosta que vi de perto quando acordei.

Vejo, de relance, uma fila parada contra uma parede, todos de joelhos, as nucas marcadas, um guarda passando devagar com algo na mão. Não olho de novo.

Vejo dois corpos sendo arrastados pelos tornozelos por um terceiro corpo, e o terceiro tem a cabeça raspada e o olho vazio dos que arrasta, e ninguém acha aquilo estranho.

Vejo uma porta aberta de onde sai luz branca e um som agudo e regular, e um cheiro que faz o meu corpo inteiro querer recuar. O guarda da frente nem vira a cabeça. Passamos reto.

Vejo um homem encolhido contra a parede, desses que ainda têm alguém atrás dos olhos. Por um instante o olho dele encontra o meu, e ele desvia tão rápido que entendo sem precisar de palavra: aqui, olhar custa.

O apito no ouvido vai e volta. Às vezes o medo prende um detalhe pequeno e idiota — uma marca de mão em sangue seco numa quina de parede, do tamanho de uma mão, na altura de quem caiu ali e tentou se segurar — e esse detalhe fica comigo mais nítido que o próprio caminho. Às vezes um nível inteiro some entre um portão e o outro.

Em algum momento param. Em algum momento uma porta de barras abre. Em algum momento me empurram para dentro, e eu não caio, mas chego perto, e a porta fecha atrás de mim com um som que não tem volta.


A cela é quase do meu tamanho.

É a primeira coisa que o corpo entende, antes da cabeça: não cabe. As paredes estão perto demais. De braços abertos eu tocaria as duas. O teto está logo ali. O ar é parado, quente, e cheira a concreto molhado, a corpo e a urina velha — um cheiro que não tem para onde ir, porque o ar daqui não tem para onde ir.

Tem uma estrutura de metal presa numa parede. Duas camas, uma em cima da outra. Na de baixo, um pano fino sobre o metal, escuro de uso, do tipo que já foi de muita gente e não foi lavado entre uma e outra.

Encosto na parede porque é a única coisa que se oferece para me segurar, e escorrego até o chão. Respiro pela boca, porque pelo nariz dói nas costelas. Cada vez que o ar entra, o lado esquerdo reclama.

Faço a única coisa que ainda sei fazer. Confiro.

Movo os dedos. Movem. Movo os pés. Movem; o tornozelo manda um aviso, mas movem. O olho direito abre uma fresta. O esquerdo abre inteiro. As costelas existem de um jeito que costela não devia existir, pesando, ocupando lugar. Mas o ar entra e sai. O coração bate. Continuo aqui dentro deste corpo que não é meu, que é meu, que ainda não sei.

Estou vivo. Acho que é isso que a conferência quer dizer. E estar vivo aqui, já entendi, não é a mesma coisa que ter sorte.

Fecho os olhos. Só um instante.

E é com os olhos fechados que percebo.

Tem uma respiração na cela que não é a minha.

Demoro a separar. Tem o zumbido longe, tem um gotejar de cano, tem o meu ar entrando torto. Mas por baixo de tudo, vindo de cima, da cama colada no teto, tem um respirar lento e regular. E é diferente de tudo que ouvi desde que acordei. As cascas na fila respiravam todas iguais, ar entrando e saindo de coisas. Esta respiração não é assim. Esta tem alguma coisa dentro. Sobe e desce no tempo de quem está acordado, e quieto, e escutando.

Tem um peso ali em cima. Uma sombra que se mexe um pouco quando eu me mexo.

Abro os olhos. Não vejo muito — só a borda da cama de cima, escura contra o escuro. Mas alguma coisa lá em cima está virada para mim. Sinto, do mesmo jeito que senti os olhos do guarda. Mas sem o recuo. Sem a coisa fechando no peito. Diferente.

Então, de cima, baixa uma voz, quase sem ar:

— Para de tremer.

Uma pausa. O peso se ajeita. A voz volta, mais baixa ainda. Não tem nada de gentil nela. Não tem nada de morto nela também:

— Eles voltam pelo barulho.

Eu fico imóvel no chão da cela quase do meu tamanho, com o corpo desfeito e o ouvido apitando e as costelas em brasa, e por um instante esqueço tudo isso, porque acabei de entender uma coisa simples e maior que este lugar todo.

Tem outra pessoa viva aqui dentro.