Capítulo 1
Mika e a Contagem
Não consigo parar.
Ela mandou parar de tremer e eu tento. Tranco o maxilar. Aperto as costas na parede até o concreto frio responder pela espinha. Por um instante o corpo fica quieto. Depois volta, miúdo, contínuo, subindo pelos ombros, de um lugar mais fundo que eu, que ela não alcança e eu também não.
Mas alguma coisa mudou, e demoro a entender o quê.
Ela falou comigo.
O homem das botas também falou para mim — olha pra baixo, para de subir. Mas aquilo eram ordens para o corpo, e o corpo obedecia antes de eu existir na frase. O resto foi dito por cima de mim: esse mexe, ativo, tá mole, não desperdiça. Eu era a peça. Ela é a primeira que fala como se do outro lado tivesse alguém. Falou para um você. O você sou eu.
Não sei o que fazer com isso. É grande demais, e eu, pequeno demais.
— Não consigo — digo. A voz me surpreende. Sai rouca, baixa, e cada palavra puxa o lado esquerdo das costelas. — O tremor. Não consigo parar.
Silêncio em cima. Longo. Não é vazio. É de alguém escolhendo o que vale a pena dizer.
— Respira fundo. Segura. Solta devagar. — Uma pausa. — Não é pra ti. É pra eles não te ouvirem.
Faço o que ela diz. Puxo o ar, o lado esquerdo grita, seguro mesmo assim, conto até o peito reclamar, solto. De novo. O tremor não some, mas afrouxa. E reparo: obedeci sem a coisa fechar no peito. Com o guarda, a cabeça desceu sozinha e me trancou por dentro. Agora não. Agora eu escolhi obedecer, e continuei aqui dentro de mim enquanto fazia. Não sei dizer a diferença. Mas o corpo sabe, e por um segundo fica um pouco menos com medo dela do que tinha de ficar.
Os olhos vão se acostumando.
Não tem muito a que se acostumar. A cela é quase toda escura. Pela grade da porta entra um fio de luz amarela, fraca, do corredor, e esse fio cai no chão em barras tortas e morre antes de chegar à parede do fundo. É pouco. É o suficiente para eu começar a ler o lugar onde fui jogado.
Faço o que sei fazer. Confiro. Meço.
O chão é concreto, molhado de um jeito que não seca, frio sob mim. A dois passos da parede tem um buraco no piso, de borda gasta, com uma mancha descendo dele que a luz não me deixa ver inteira. Não preciso ver. O cheiro diz para que serve. É o único lugar para isso, e fica aqui, no meio de onde se vive, e quem usa usa na frente de quem está. Não tem canto para se esconder. A cela inteira é o canto.
Encosto a cabeça na parede e sinto, sob o couro cabeludo machucado, que a parede não é lisa. Passo os dedos. Tem marcas. Riscos cavados na pedra com unha ou com ponta de alguma coisa, gente diferente em tempos diferentes — uns velhos e suaves, outros com a borda ainda viva. Estão em grupos: quatro riscos em pé e um quinto atravessado, fechando o grupo. Outro grupo. Outro. Descem pela parede até onde a luz não vai.
Conto, porque contar não exige lembrar. Chego a sete grupos e me perco no escuro. Recomeço. Perco de novo. Não sei o que cada risco mede. Mas mede alguma coisa: ninguém risca uma parede assim, com tanto cuidado, em grupos certinhos, sem estar contando. Alguém esteve aqui contando. Muito. E parou — os riscos param numa altura, e abaixo dela a pedra está lisa de novo. Não quero pensar no que faz uma pessoa parar de contar.
— Quanto tempo a gente fica aqui? — pergunto, baixo, para cima.
A respiração lá em cima muda de ritmo.
— Até acabar — diz ela, por fim.
Quero ver quem está falando comigo.
Levanto a cabeça e procuro a borda da cama de cima. No fio de luz amarela alcanço pouco: um vulto deitado de lado, parado, a cabeça raspada igual à minha. Mas tem uma diferença, e sinto antes de ver: ela está acordada. As cascas na fila respiravam dormindo de pé. Os homens no corredor desviavam o olho para sumir. Ela faz o contrário — está parada, mas é a parada de uma coisa que pode levantar num instante.
E está olhando para mim. Não como o guarda olhou — o guarda mediu se eu servia. Esta mede outra coisa. Não sei o quê. Sinto o olhar correr por mim no escuro e parar, aqui e ali, como a mão que apalpa uma coisa nova para saber onde ela quebra.
— Você não dormiu — digo. Não era para virar pergunta. Vira.
— Não. — A voz é seca, sem nada sobrando. — Para de fazer pergunta de quem chegou hoje.
— Eu cheguei hoje.
O silêncio em cima fica de um tipo novo.
— De onde você veio? — ela pergunta. Devagar. Do jeito de quem já decidiu prestar atenção na resposta.
— De lá em cima. Da… — procuro a palavra e não tenho a palavra. — Da fila. Gente em pé, parada, a cabeça assim como a sua, marcada atrás. Andavam juntos. Um passo, todos. Não olhavam. Acordei no chão do lado deles.
— Acordou.
— Acordei. — Aperto uma mão na outra para o tremor não aparecer na voz. — Não sei dizer melhor. Não estava, e aí estava. Abri os olhos e tinha o chão, e o cheiro, e a palavra para o cheiro veio antes de mim. Não tinha nada antes disso. Procurei. Não tem nada antes.
— Antes de quê?
— Antes de agora.
— Agora hoje? — Ela se mexe, pouco, em cima. — Ou agora a vida toda?
Paro. A pergunta é exata de um jeito que me corta. Ela achou, de primeira, a borda da coisa que eu não consigo nomear.
— A vida toda — digo, e a voz some no fim, porque dizer em voz alta é pior que pensar. — Tenho isto aqui. — Levanto as mãos no fio de luz, mostro as cicatrizes que não me lembro de ganhar. — Tudo isto é de alguém que apanhou muito e bateu muito e sobreviveu. O corpo sabe cair. Soube cair quando me chutaram, antes de eu mandar. Mas eu não estava lá quando ele aprendeu. Estou usando o corpo de uma pessoa que foi embora e não deixou recado.
Silêncio. Um silêncio que escuta. Sinto a atenção dela em cima de mim como peso.
— Você está dizendo que não lembra de nada — diz ela, devagar. — Ou que não tem nada pra lembrar.
— Qual é a diferença?
— Toda. — A palavra cai dura. — Uma é estar quebrado. A outra é estar… — ela para. Não termina. Sabe a palavra e não me dá. Isso eu entendo, mesmo sem entender o resto: ela parou de propósito.
Conto o resto, porque ela não manda parar, e contar põe em fila o que está solto.
— Veio um homem. De botas. Olhou para mim e disse que eu mexia, como se mexer fosse o errado. Os outros não mexiam. Só eu. — As palavras saem mais rápidas agora, tropeçando. — Mandou olhar para baixo e a minha cabeça desceu sozinha, e eu queria levantar e não consegui, e teve uma coisa no meu peito que… — encosto a mão no osso do meio do peito, onde ainda dói de um jeito que não é dor de pancada. — Que recuou. Que tinha força e fechou. Aí me bateram. Devagar, sem raiva, cada chute no mesmo tempo. E a fila andou enquanto isso, e ninguém parou, ninguém olhou. Aí não me levaram pra abertura. Me viraram pro outro lado. Olharam a minha nuca, disseram pra não me desperdiçar, e me trouxeram pra baixo, e me jogaram aqui.
Quando termino estou sem ar. O lado esquerdo lateja com cada respiração curta. Espero que ela diga o que era a abertura, por que eu mexia e os outros não.
Ela fica calada muito tempo.
Quando fala, a voz está mais baixa. Mais devagar. Não me explica nada — mas o jeito como não explica mudou. Antes ela segurava a informação como quem não quer gastar à toa. Agora segura como quem acabou de pesar uma coisa e não gostou do peso.
— A abertura — diz ela. — Você viu a abertura no fim da fila.
— Vi. Os corpos entravam e sumiam. Um por vez.
— E você foi tirado da fila antes da abertura.
— Fui.
Um som curto em cima. Não é riso. É o ar saindo pelo nariz de quem juntou duas coisas e não gostou da soma.
— Você não devia estar aqui — diz ela. — Não desse jeito.
— Por quê?
— Porque ninguém sai daquela fila.
E não explica o que é a fila, não explica o que é a abertura, não me dá o nome de nada. Mas o jeito como diz aquela fila é diferente do resto do que falou. Mais baixo. Como quem não quer que a palavra acorde alguma coisa. Fico frio de novo. E dessa vez não é o meu frio de bicho novo no escuro. É o frio de estar perto de uma pessoa que tem medo de uma coisa de verdade — e sabe exatamente do que tem medo.
Passos no corredor.
Vêm de longe, sola dura contra concreto, e atrás o tilintar de metal que o corpo já guardou. Não decido nada e o corpo decide por mim: o ar para, o peito fecha, a força some das mãos como água escorrendo entre os dedos. A coisa no meio do peito encolhe, recua, vai para um lugar fundo demais. Fico sem conseguir mexer, a cabeça querendo descer sozinha, só pela ideia das botas.
Os passos passam reto. Param numa cela mais adiante. Metal bate em metal, alto, uma voz solta uma ordem curta, e de dentro da outra cela vem um arrastar, um corpo se levantando rápido demais, e depois nada. Os passos seguem. Somem.
Levo um tempo para voltar a respirar inteiro. Quando volto, percebo que estou com as costas grudadas na parede e os dedos abertos no chão, parado igual às cascas da fila — do jeito errado, do jeito de quem desligou.
Em cima, ela mudou de posição. Está mais perto da beira. Olhando.
— Eles nem entraram aqui — diz ela. Não é pergunta. — Passou um guarda no corredor e você apagou.
— Eu não… — Não sei como terminar. — Não foi eu. Foi o corpo. O corpo fechou.
— Eu vi.
Dois sons só. Eu vi. Não tem desprezo. Não tem pena, que talvez fosse pior. Tem outra coisa, que ela não mostra: ela viu, e guardou onde viu, do mesmo jeito que guardou tudo o que eu disse. Não me pergunta o que foi. Não preciso ser esperto para entender que ela já sabe mais sobre o que aconteceu no meu peito do que eu.
— Me escuta — diz ela, e a voz fica reta, sem nada de macio, pura ordem. — Não vou repetir, e o tempo é curto.
Endireito as costas. Doem. Endireito mesmo assim.
— Daqui a pouco eles vêm. Vão bater na grade. Quando baterem, você levanta. Rápido, sem cair, sem encostar em ninguém. Fica em pé. Olha pro chão, nunca pra eles. Não fala. Não mexe. Não treme — e como você não consegue não tremer, fica atrás de mim, onde eles olham por último. — Ela respira. — E quando mandarem, você diz teu número.
A palavra para na minha frente como uma parede.
— Meu o quê?
— Teu número. — Uma pausa que se estica. — A marca atrás do teu pescoço. Todo mundo tem. É o que eles chamam. Não chamam nome. Chamam número. Você responde o teu, alto e claro, e abaixa a cabeça de novo.
Levo a mão à nuca, ao lugar áspero e repuxado que dói quando toco — o mesmo onde o guarda enfiou o polegar lá em cima. Tem uma coisa cravada ali. Sinto o relevo sob os dedos. Não consigo ver, nunca vou conseguir. Não sei ler. Não sei dizer.
— Eu não sei o meu número — digo.
E é aqui que ela fica, pela primeira vez, completamente parada.
Não é o silêncio de antes, o silêncio que pensa. É outra coisa. Ela para do jeito que uma pessoa para quando ouve um som que não devia existir. O vulto em cima se mexe, desliza até a beira da cama, e de repente o rosto dela está ali, na beira, baixo, perto, dentro do fio de luz amarela. Vejo os olhos pela primeira vez.
Não têm sono. Estão fixos em mim, e correm por mim depressa, como quem confere depressa uma coisa que não esperava encontrar.
— Todo mundo sabe o número — diz ela, mais baixo que tudo que falou até agora. — Marcam na gente no primeiro dia. Com ferro. Não esquece, nem querendo. — Ela me olha mais fundo. — E você não sabe o teu.
— Não.
— Não sabe o número. Não sabe a abertura. Não sabe a fila. Não sabe o que é… — para, recomeça, e a frase sai quase sem voz, mais para ela que para mim: — Você não está fingindo.
— Fingindo o quê?
— Eu achei que você estava jogando. — Ela não tira os olhos de mim. — Bancando o perdido pra eu baixar a guarda. Todo mundo aqui tem um ângulo. Fiquei esperando o teu. — Uma pausa. — Mas você não sabe nem o suficiente pra ter um.
Não respondo. Não há o que responder. É verdade, e ouvir a verdade dita em voz alta, no escuro, dói de um jeito limpo, diferente de todas as outras dores de hoje.
Sem decidir, viro um pouco o corpo na parede, para o fio de luz. Não sei bem por quê. Talvez porque ela é a única coisa neste lugar que olhou para mim sem medir antes se eu servia. Ao virar, deixo as costas na luz amarela.
Ela fica quieta.
— Não se mexe — diz, baixo. Não é a ordem de antes. — Fica assim um segundo.
Sinto o olhar dela descer pelas minhas costas. Não vejo. Sinto, como se sente o sol sem olhar para ele. Ela está lendo alguma coisa em mim que eu nunca vi.
— Tem uma coisa escrita nas tuas costas — diz ela.
— Escrita?
— Uma palavra. Marcada na pele. Velha. — Uma pausa. — Não é número.
— O que diz?
Ela demora. E quando lê, lê devagar, como quem confere cada letra antes de confiar nela:
— Leonor.
A palavra entra em mim e não acha nada onde se prender. Espero que abra alguma coisa — um rosto, uma voz, um antes — do jeito que ferro e sangue vieram prontos no primeiro instante. Não vem nada. Leonor é só um som. Está escrito em mim, na carne, num tempo que me deixou e não me contou.
— É meu? — pergunto. É uma pergunta idiota. Está nas minhas costas. Mas preciso ouvir.
— Está em você — diz ela. E então, seca, prática, do jeito de quem resolve um problema pequeno: — Preciso te chamar de alguma coisa pra te dar ordem lá fora. Você não tem nome e não sabe dizer teu número. — Ela se recosta, o rosto saindo da luz. — Então é isso. É o que você tem. Leonor.
Não é um presente. Ela não me deu nada — leu, em voz alta, uma coisa que já estava ali. Mas é a primeira coisa que é minha desde que abri os olhos. Não a mão, não o corpo de outro, não a fila. Uma palavra.
O olhar dela sobe para a minha nuca, para o lugar repuxado que eu não alcanço.
— Mas não é Leonor que eles querem ouvir — diz ela, lendo o que está cravado ali. — Na contagem, chamam número, não nome. O teu é baixo. Zero, três, seis, nove. Decora, nessa ordem. É o que você responde quando mandarem.
Zero, três, seis, nove. Guardo do mesmo jeito que guardei o nome. Os dois cabem na mesma boca e não são a mesma coisa.
— E você — digo, porque agora sei que tem um você do outro lado. — Quem é você?
Silêncio. O bastante para eu achar que não vai responder.
— Mika — diz ela enfim. Só isso. Não um sobrenome. Não um número.
— Mika — repito, devagar, para guardar.
Ela não repete o meu nome de volta. Não suaviza. A cabeça dela já virou para a grade, para o corredor, ouvindo. Quando fala de novo, é baixo e é duro, e é para que eu não confunda o nome com gentileza:
— Nome não salva ninguém aqui. Número é o que te mantém de pé na fila. Decora o teu, e faz o que eu mandar, sem perguntar. É assim que você não morre hoje.
O instante não dura.
Lá fora, um som novo cresce. Não é um par de botas. São muitos — sola dura contra concreto, dezenas, vindo na mesma direção. Por cima delas, um ranger pesado de portões correndo, um atrás do outro, abrindo o corredor cela por cela. E luz: amarela e tremida, derramando pela grade conforme as tochas se aproximam, empurrando o escuro para os cantos.
Mika já está de pé.
Não a vi descer. Num momento estava na beira da cama, no outro está no chão, sem ruído, os pés afastados na medida certa. Ela se move do jeito que o meu próprio corpo se move quando o deixam decidir sozinho. Mas o dela não treme.
Uma voz estoura no corredor, perto, grande, sem subir nem descer, jogada por cima de todas as celas de uma vez:
— De pé! Na grade!
E atrás, mais seco, quase entediado, o nome do que vem:
— Contagem.
Metal bate na nossa grade. Uma vez, com força, a vibração subindo pelo chão até os meus dentes. E o corpo inteiro me trai — o ar para, o peito fecha, a coisa no meio mergulha para o fundo, as mãos esfriam e perdem força. Encolho contra a parede antes de pensar, do jeito que encolhi no corredor, do jeito que o corpo aprendeu com alguém em algum lugar. Por um segundo não sou ninguém. Não sou Leonor. Não sou nada além de uma coisa pequena querendo não ser vista.
Uma mão me agarra pelo braço. Firme. Não é dos guardas.
— Levanta — diz Mika, baixo, rápido, junto do meu ouvido, e a voz corta o apito e o gelo e chega. — Agora. Atrás de mim. Olho no chão. Boca fechada.
Ela me puxa para cima. As costelas gritam, o tornozelo cede meio passo e segura, e eu fico de pé, tremendo, na luz amarela que enche a cela, com as botas parando do lado de fora da grade.
A conversa acabou.
Não porque terminamos. Porque o lugar voltou a falar — e quando este lugar fala, é o único que fala.